Antes de abrir o Calçadão para carros, Concórdia precisa cuidar melhor do espaço

O jornalismo da Página Quatro já se posicionou contra a liberação do trânsito e, com a retomada da discussão, leitores voltaram a procurar o portal para manifestar preocupação com a proposta


A possibilidade de liberar novamente a circulação de veículos no Calçadão de Concórdia voltou ao debate e reacendeu uma discussão que acompanha o espaço praticamente desde sua implantação.

 

A Prefeitura estuda realizar um período de testes, permitindo a passagem de veículos em determinados dias e horários, enquanto nos fins de semana o local permaneceria destinado exclusivamente aos pedestres. A proposta conta com o apoio do prefeito Fábio Ferri, da CDL, do Sindilojas e de parte dos comerciantes da região central. Ainda não há, portanto, uma decisão definitiva sobre a mudança.

 

Tão logo o assunto voltou ao debate, a reportagem da Página Quatro passou a receber mensagens de leitores contrários à eventual abertura do Calçadão para automóveis.

 

Essa procura também é compreensível porque o próprio portal já se posicionou editorialmente sobre o tema. Em outubro de 2025, quando a possibilidade de abertura voltou à discussão política, a Página Quatro defendeu a manutenção do espaço prioritariamente para pedestres.

 

Agora, diante da retomada do assunto, entendemos que alguns pontos merecem novamente ser colocados sobre a mesa.

 

Um equipamento urbano já consolidado

 

Independentemente das críticas que possam existir sobre sua administração, o Calçadão tornou-se um equipamento urbano consolidado de Concórdia.

 

É um espaço utilizado para caminhadas, encontros, alimentação, eventos, manifestações culturais e convivência. Crianças circulam pelo local, famílias utilizam a estrutura e estabelecimentos de alimentação passaram a explorar justamente essa característica.

 

Transformar novamente o espaço em uma via de circulação de automóveis significa alterar uma dinâmica que a população levou alguns anos para incorporar.

 

Além disso, existe uma questão objetiva de segurança. Hoje, quem entra no Calçadão o faz sabendo que está em uma área destinada prioritariamente às pessoas. A introdução de automóveis e motocicletas exigiria uma nova lógica de circulação, sinalização e fiscalização.

 

Há problemas, mas carros são a solução?


Isso não significa ignorar os problemas existentes.

 

O Calçadão precisa de atenção permanente do poder público. Segurança, limpeza, iluminação, conservação do piso, fiscalização e ocupação do espaço precisam fazer parte de uma política contínua.

 

Algumas das manifestações encaminhadas à Página Quatro nos últimos dias apontam justamente nessa direção: antes de discutir a circulação de automóveis, o Município deveria melhorar as condições atuais do espaço.

 

A segurança continua sendo uma preocupação. A presença mais frequente das forças de segurança, especialmente nos horários de maior movimento, ajudaria a devolver às famílias uma sensação maior de tranquilidade.

 

A limpeza também precisa ser permanente. Restos de alimentos, embalagens e outros resíduos prejudicam a imagem de um espaço que deveria funcionar como uma das principais áreas de convivência da região central.

 

O mesmo vale para iluminação, manutenção do mobiliário e conservação do próprio piso, que já apresenta pontos que demandam atenção.

 

Mais vida para o Calçadão

 

Existe ainda outro caminho que merece ser considerado: ocupar o Calçadão.


Um espaço público vazio tende a perder atratividade. Um espaço ocupado por famílias, crianças, atividades culturais, gastronomia e eventos cria movimento e também favorece o comércio.

 

Por isso, antes de colocar carros no Calçadão, talvez seja necessário colocar mais vida nele.

 

Uma programação permanente, especialmente nos fins de tarde, noites e finais de semana, poderia estimular a circulação de pessoas e fortalecer restaurantes, lanchonetes, cafés e demais estabelecimentos do entorno.

 

É possível discutir feiras, apresentações musicais, atividades infantis, exposições, eventos temáticos e outras iniciativas capazes de transformar o local efetivamente em um ponto de encontro da cidade.


Comércio merece ser ouvido

 

Também seria equivocado ignorar a preocupação dos comerciantes.


Se empresários instalados no Calçadão relatam redução de movimento ou dificuldades econômicas, o poder público deve ouvi-los e procurar alternativas.

 

Mas é difícil estabelecer que a ausência de automóveis seja, isoladamente, responsável pelo fechamento de estabelecimentos ou pela redução das vendas.


O comércio de rua enfrenta transformações muito maiores, entre elas o crescimento das compras pela internet, mudanças no comportamento dos consumidores, custos de aluguel e operação e novas formas de concorrência.

 

E existe uma pergunta prática: se os veículos apenas passarem pelo Calçadão, sem a criação significativa de novas vagas de estacionamento, qual seria efetivamente o impacto sobre as vendas?


É uma questão que merece dados e avaliação antes de uma mudança definitiva.

 

Cautela antes da decisão

 

O prefeito Fábio Ferri tem diante de si uma decisão que merece cautela.

 

O debate é legítimo. Comerciantes favoráveis à abertura devem ser ouvidos, assim como moradores, frequentadores, entidades e comerciantes contrários à medida.

 

Mas o Calçadão não é apenas uma rua que teve o trânsito interrompido. Depois de anos funcionando dessa maneira, tornou-se um espaço de convivência incorporado à rotina da cidade.

 

Antes de mudar essa característica, Concórdia deveria avaliar se já fez tudo o que poderia para que o modelo atual funcione melhor.

 

Mais segurança. Mais limpeza. Melhor iluminação. Fiscalização. Conservação. Cultura. Eventos. Incentivo à ocupação e à convivência.

 

Talvez o problema do Calçadão não seja a falta de carros.


Talvez esteja faltando cuidar melhor daquilo que Concórdia já construiu.