Reforma tributária: é preciso corrigir o rumo antes que os prejuízos se tornem permanentes. (Artigo) Raimundo Colombo

A reforma tributária nasceu de uma necessidade real. O Brasil convive há décadas com um dos sistemas tributários mais complexos e burocráticos do mundo. Simplificar impostos, reduzir a insegurança jurídica e dar mais eficiência à economia sempre foi um objetivo correto. O problema é que uma reforma dessa dimensão precisa considerar as diferentes realidades do país e seus impactos sobre cada estado e setor produtivo.

 

Santa Catarina construiu seu desenvolvimento com muito trabalho, empreendedorismo e inteligência. Não somos um estado rico em recursos naturais. Nossa riqueza está nas pessoas, na capacidade de produzir, inovar e transformar. Foi assim que nos tornamos referência nacional na indústria, no agronegócio, na tecnologia e nos serviços.

 

Por isso, preocupa a forma como a reforma tributária foi desenhada. A mudança da arrecadação da origem para o destino pode provocar efeitos profundos sobre estados produtores como Santa Catarina. Não se trata de ser contra a modernização do sistema tributário, mas de reconhecer que alguns pontos precisam ser revistos antes que provoquem perdas irreversíveis.

 

Um dos exemplos mais claros está na cadeia da proteína animal. Santa Catarina é líder nacional na produção e exportação de carne suína e é uma das maiores produtoras de carne de frango do Brasil. Entretanto, boa parte do milho e da soja utilizados na alimentação animal vem de outras regiões do país. Durante muitos anos, mecanismos tributários compensaram o elevado custo logístico desse transporte, permitindo que as indústrias permanecessem aqui, gerando emprego, renda e desenvolvimento.

 

Com a extinção desses instrumentos, existe o risco concreto de que empresas transfiram suas operações para estados produtores de grãos. Não seria apenas uma mudança geográfica. Seria uma perda econômica enorme para Santa Catarina, comprometendo milhares de empregos, reduzindo investimentos e enfraquecendo uma cadeia produtiva que movimenta bilhões de reais todos os meses.

 

Outro aspecto que merece atenção é o impacto sobre os pequenos municípios. A nova lógica de arrecadação tende a concentrar receitas onde ocorre o consumo, favorecendo grandes centros urbanos. Cidades menores, que já enfrentam dificuldades para manter serviços públicos e oportunidades para sua população, poderão perder arrecadação justamente quando mais precisam de investimentos. Isso pode acelerar o êxodo populacional e ampliar as desigualdades regionais.

 

A reforma tributária não deve ser encarada como um projeto acabado e intocável. Ela precisa ser acompanhada, avaliada e aperfeiçoada durante sua implantação. Corrigir distorções não significa retroceder. Significa agir com responsabilidade para preservar aquilo que Santa Catarina construiu ao longo de décadas.

 

O próximo Congresso Nacional terá um papel decisivo nesse processo. Mais do que regulamentar a reforma, será necessário defender os interesses dos estados produtores, garantir equilíbrio federativo e impedir que o desenvolvimento conquistado por regiões como Santa Catarina seja comprometido.

 

Modernizar o sistema tributário é importante. Mas preservar empregos, fortalecer a produção, proteger os pequenos municípios e assegurar competitividade para a economia catarinense é ainda mais essencial. É esse equilíbrio que precisamos buscar.

 

Ex-governador de SC e pré-candidato a deputado federal pelo PSD