O fantasma que ronda a pré-candidatura de Gabriel Souza ao governo do Rio Grande do Sul: a política adora a traição, mas nunca perdoa o traidor

Há uma velha máxima da política que atravessa gerações: “A política adora a traição, mas nunca perdoa o traidor.” A frase, de autoria incerta, ajuda a compreender um dos principais desafios enfrentados pelo vice-governador Gabriel Souza (MDB), pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul.


Mais do que enfrentar adversários nas urnas, Gabriel convive com um fantasma político que nasceu em 2022 e que, quatro anos depois, continua rondando sua candidatura.

 

Naquele ano, o MDB gaúcho viveu uma das disputas internas mais marcantes de sua história recente. De um lado, o deputado federal Alceu Moreira, representante do chamado MDB raiz, percorreu o Estado defendendo uma candidatura própria ao Palácio Piratini. Do outro, o então deputado estadual Gabriel Souza, principal nome de uma nova geração do partido, também colocou seu nome na disputa.

O fantasma que ronda a pré-candidatura de Gabriel Souza ao governo do Rio Grande do Sul: a política adora a traição, mas nunca perdoa o traidor

 

Os dois são do Litoral Norte — Alceu Moreira, de Osório, e Gabriel Souza, de Tramandaí — e simbolizavam dois projetos distintos para o futuro do MDB.

 

Gabriel venceu a convenção estadual, mas o desfecho surpreendeu parte da militância. Em vez de liderar uma candidatura própria ao governo, acabou aceitando compor como candidato a vice-governador na chapa de Eduardo Leite (à época no PSDB). Na prática, o MDB abriu mão de disputar o Palácio Piratini para integrar uma aliança liderada pelos tucanos.

 

A estratégia foi eleitoralmente bem-sucedida. Eduardo Leite foi reeleito, e Gabriel Souza chegou ao cargo de vice-governador.

 

Politicamente, porém, a decisão deixou cicatrizes dentro do MDB. Lideranças históricas como Alceu Moreira, José Fogaça, César Schirmer e o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, defendiam que o partido mantivesse protagonismo com candidatura própria. Para muitos emedebistas, aquele episódio representou uma ruptura com a tradição da legenda.

Quatro anos depois, o cenário mudou completamente.

 

Durante o governo Eduardo Leite, partidos como PP, PDT e PSB integraram a base aliada. Hoje, todos seguiram caminhos diferentes. O PP compõe a chapa encabeçada por Luciano Zucco (PL). O PDT lançou Juliana Brizola ao governo, tendo Edgar Pretto (PT) como candidato a vice. O PSB também aderiu ao mesmo projeto político.

 

Sem esses antigos aliados, Gabriel Souza depende mais do que nunca de um MDB mobilizado e unido em torno de sua candidatura.

 

É justamente nesse ponto que ressurge o fantasma de 2022. Embora tenha vencido a disputa interna e conquistado o cargo de vice-governador, Gabriel ainda enfrenta a desconfiança de uma parcela do partido, que nunca assimilou completamente o caminho escolhido naquela eleição.

 

Talvez esteja aí uma das explicações para a dificuldade de sua pré-candidatura ganhar força nas pesquisas. Enquanto Luciano Zucco lidera boa parte dos levantamentos e Juliana Brizola aparece disputando as primeiras posições, Gabriel Souza ainda busca transformar o apoio formal do MDB em entusiasmo político.


O primeiro grande sinal de que esse fantasma continua vivo veio justamente de um dos mais respeitados líderes históricos do MDB gaúcho. César Schirmer rompeu com a pré-candidatura de Gabriel Souza e passou a integrar a coordenação da campanha de Luciano Zucco. O gesto tem peso político e simbólico, pois parte de uma liderança que esteve entre as principais vozes do partido por décadas.

 

Porque, como ensina a velha máxima, a política adora a traição, mas nunca perdoa o traidor.