Santa Catarina aparece entre os estados com melhor desempenho no acesso à educação infantil no Brasil, especialmente na faixa de 4 e 5 anos. No entanto, por trás dos indicadores positivos, persiste um problema estrutural que segue sem solução: a falta de vagas em creches.
Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em conjunto com levantamentos do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) e do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina (TCE-SC), apontam que, embora o atendimento na pré-escola esteja próximo da universalização, o acesso para crianças de 0 a 3 anos ainda está aquém da demanda.
Gargalo nas creches pressiona famílias
O principal desafio está concentrado nas creches. Em cidades com maior concentração populacional, a demanda cresce em ritmo superior à capacidade de abertura de novas vagas, mantendo filas de espera e pressionando famílias.
Na prática, a falta de acesso à educação infantil nessa faixa etária afeta diretamente o dia a dia das famílias — especialmente das mães, que muitas vezes precisam adiar ou abandonar o trabalho por não terem onde deixar os filhos.
Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Banco Mundial indicam que o acesso à educação infantil pode aumentar em até 25 pontos percentuais a chance de emprego das mães, reforçando o impacto econômico da falta de vagas.
Indicadores positivos escondem desigualdade
Apesar de apresentar desempenho acima da média nacional, Santa Catarina convive com um desequilíbrio interno. Enquanto capitais brasileiras já atingiram 100% de atendimento na pré-escola, o país ainda registra déficits importantes nas creches — realidade que também se reflete em municípios catarinenses.
Além disso, o problema atinge de forma desigual as famílias mais vulneráveis. Dados do Cadastro Único mostram que o acesso à creche é significativamente menor entre crianças em situação de pobreza extrema, ampliando o abismo social.
Fila nas creches expõe limite estrutural
O desafio vai além da construção de novas unidades. Especialistas apontam que é necessário ampliar o planejamento, melhorar a gestão da demanda e integrar políticas públicas para garantir o acesso.
A estratégia de “busca ativa”, adotada pelo Ministério da Educação para localizar crianças fora da escola, esbarra justamente na falta de estrutura: encontrar não resolve quando não há vaga disponível.
Prazo estourado e pressão sobre os municípios
O Plano Nacional de Educação previa a universalização do atendimento para crianças de 4 e 5 anos até 2016 — meta que acabou sendo postergada para 2028. Já no caso das creches, o objetivo de ampliação segue distante em diversas regiões.
Com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) projetando movimentar cerca de R$ 370 bilhões em 2026, prefeitos de municípios menores ainda relatam dificuldades para ampliar a oferta, citando falta de apoio técnico, limitações orçamentárias e entraves logísticos, especialmente no transporte rural.
Investimento que retorna
O economista James Heckman, Nobel de Economia, aponta que investir na primeira infância pode gerar retorno entre 8% e 14% ao ano. Para ele, cada real aplicado nessa fase reduz custos futuros em áreas como segurança pública e assistência social.





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