Pesquisas: números para todos os gostos. Está na hora de a Justiça Eleitoral abrir os olhos

Esta semana fui lembrado de uma pesquisa de boca de urna em Concórdia que apontava vitória de César Luiz. Quando os votos foram apurados, quem venceu foi João Girardi.


E temos um exemplo bem mais recente, da eleição municipal de 2024.

 

Dois dias antes da votação, uma pesquisa do Instituto AS Planejamento e Serviços colocou Edilson Massocco (PL) na liderança, com 45%, Mauri Maran (PT) em segundo, com 21,8%, e Fabiano Caitano (PSD) em terceiro, com 19,8%.

 

Quando as urnas foram abertas, Massocco venceu, com 21.977 votos. Mas Fabiano terminou em segundo, com 17.792 votos, enquanto Maran recebeu 5.282.

 

Fabiano fez mais de três votos para cada voto de Maran. Na pesquisa, aparecia atrás. Nas urnas, terminou 27,77 pontos percentuais à frente.

 

Os percentuais do levantamento e os votos válidos da eleição têm bases diferentes. Ainda assim, a distância entre os dois candidatos chama atenção e merece uma explicação pública de quem realizou a pesquisa.

 

Em Santa Catarina, quem não lembra da surpresa de Carlos Moisés em 2018? Um candidato que aparecia distante dos favoritos nas pesquisas chegou ao segundo turno e foi eleito governador.

Pesquisas: números para todos os gostos. Está na hora de a Justiça Eleitoral abrir os olhos

 

E na eleição presidencial de 2022? Na reta final, a Brasmarket apontava Jair Bolsonaro à frente. Quando a votação terminou, quem venceu foi Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Esses episódios ajudam a entender a desconfiança do eleitor. Não comprovam fraude, mas reforçam a necessidade de transparência e fiscalização.

 

Pesquisa eleitoral não é receita de bolo. É estatística. Mas, diante desse festival de levantamentos, parece que há números para todos os gostos: uns mais doces, outros mais amargos. Uns descem bem; outros ficam atravessados.

 

Agora, em Santa Catarina, a Quaest divulgada em 24 de setembro colocou Jorginho Mello (PL) na liderança, com 54%, João Rodrigues (PSD) em segundo, com 13%, e Gelson Merisio em terceiro, com 10%. Os indecisos somavam 15%.

 

Já a Neokemp divulgada em 1º de outubro apresentou Jorginho com 58,2%, Merisio em segundo, com 18,3%, e João em terceiro, com 16,7%. Os indecisos ficaram em 2,5%.

 

Além da diferença no número de indecisos, os levantamentos inverteram a posição dos dois principais adversários do governador.

 

Essa ordem pode pesar na decisão de quem pretende dar um voto útil. O eleitor olha a pesquisa e tenta identificar qual candidato teria mais condições de enfrentar o líder. Uma posição numérica apresentada como consolidada pode influenciar essa escolha, mesmo quando a diferença está dentro da margem de erro.

 

O episódio de Concórdia serve de alerta. O candidato colocado em terceiro naquele levantamento terminou a eleição com mais de três vezes a votação daquele que aparecia em segundo.

 

Isso não permite antecipar o que acontecerá em Santa Catarina. Mas mostra por que os números precisam ser apresentados com seus limites, e não como uma sentença sobre o resultado da eleição.

 

São amostras, datas e métodos diferentes. Não podemos afirmar que a distância entre os percentuais de indecisos corresponde a eleitores que se decidiram entre uma pesquisa e outra. Podemos, entretanto, cobrar uma explicação clara sobre como cada instituto chegou aos seus resultados.

 

Quem foi ouvido? Como essas pessoas foram selecionadas? Como foram distribuídas pelo estado? Quais ajustes foram aplicados às respostas? Quem contratou e pagou pelo levantamento?

 

O eleitor não precisa ser estatístico para ter direito a essas informações.

 

Pesquisa não é promessa de resultado. O voto pode mudar, e toda estimativa tem limites. Mas isso também não pode servir de resposta automática para qualquer questionamento.

 

É preciso distinguir mudança de voto, erro técnico e fraude. Não cabe chamar toda divergência de manipulação. Da mesma forma, uma irregularidade comprovada não pode ser tratada como simples detalhe.


Regras já existem. A cobrança à Justiça Eleitoral é por fiscalização efetiva e responsabilização quando houver descumprimento. Aos institutos, cabe oferecer métodos transparentes e explicações públicas quando seus levantamentos ficarem muito distantes das urnas.


Porque eleição não é concurso de gráficos. Quem decide é o eleitor. E quem apresenta números ao eleitor precisa responder pela qualidade do trabalho que entrega.