Artigo: A Existência se processa em ciclos? Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos

Em preliminar,  a percepção de que a existência se desenvolve em ciclos nasce da observação do mundo e da experiência de viver. O dia sucede à noite, as estações se alternam, os organismos nascem, amadurecem e morrem. Na vida humana, períodos de entusiasmo podem dar lugar ao cansaço; momentos de estabilidade são interrompidos por mudanças; vínculos se constituem, transformam-se e, por vezes, terminam. Diante dessas experiências, parece razoável perguntar se a existência obedece a um movimento circular. A resposta, entretanto, exige distinguir aquilo que efetivamente se repete daquilo que apenas reconhecemos como semelhante.

 

Na natureza, os ciclos expressam processos de renovação e continuidade. Ainda assim, a repetição não significa identidade absoluta. Uma nova primavera não reproduz integralmente a anterior, pois encontra um ambiente já modificado. Também o corpo mantém ritmos cotidianos enquanto envelhece e se transforma. Há, portanto, uma relação entre recorrência e mudança: certos movimentos retornam, mas as condições em que acontecem nunca permanecem inteiramente iguais.

 

Essa constatação oferece uma primeira chave para compreender a existência humana, na qual a sensação de retorno convive com a passagem irreversível do tempo.


A infância, a juventude, a maturidade e a velhice costumam ser apresentadas como etapas de uma trajetória. Essa divisão ajuda a reconhecer transformações, embora não esgote a diversidade das experiências individuais. Nem todos amadurecem no mesmo ritmo, encontram oportunidades semelhantes ou atravessam os mesmos acontecimentos. Há pessoas que recomeçam profissionalmente em idade avançada, descobrem novos afetos depois de grandes perdas ou assumem responsabilidades muito cedo. As etapas da vida não constituem um roteiro rígido. Elas oferecem referências, enquanto cada existência constrói sua própria maneira de atravessá-las.

 

É sobretudo na dimensão afetiva que a ideia de ciclo ganha força. Certas dificuldades parecem reaparecer em relações diferentes: o medo do abandono, a necessidade de aprovação, a resistência à mudança ou a tendência a permanecer em situações insatisfatórias. Quando esses padrões se repetem, pode surgir a impressão de que a vida insiste em apresentar o mesmo problema. Contudo, reconhecer a recorrência permite investigar suas causas. O que parece destino pode envolver hábitos, expectativas e formas de agir aprendidas ao longo do tempo. A compreensão desses elementos abre possibilidades de transformação.

 

Isso não significa atribuir ao indivíduo a responsabilidade por tudo o que lhe acontece. A existência se desenvolve em condições sociais que ampliam ou restringem escolhas. 

 

Desigualdade, precariedade do trabalho, violência e ausência de oportunidades podem produzir situações recorrentes que não se resolvem apenas por esforço pessoal. Falar em ciclos exige considerar também essas circunstâncias. Caso contrário, corre-se o risco de transformar problemas coletivos em supostas falhas individuais, como se toda pessoa pudesse modificar sua realidade somente pela disposição de começar novamente.

 

Os encerramentos, por sua vez, revelam uma dimensão decisiva da experiência humana. O término de uma relação, a perda de alguém, uma mudança de trabalho ou o abandono de um projeto interrompem formas conhecidas de viver. Frequentemente, chamamos esses acontecimentos de fechamento de ciclo. A expressão pode ajudar a organizar a experiência, mas não elimina a complexidade do que se encerra. Algumas perdas deixam marcas duradouras; outras exigem tempo para serem compreendidas. Nem todo fim traz imediatamente uma oportunidade, e o sofrimento não precisa ser justificado por uma promessa de crescimento.

 

Recomeçar tampouco significa apagar o passado. Cada nova etapa carrega lembranças, conhecimentos, feridas e expectativas. Quem retorna a uma atividade antiga ou reencontra uma pessoa importante já não ocupa exatamente o mesmo lugar de antes. A experiência acumulada modifica a percepção e pode alterar as escolhas. Por essa razão, talvez a espiral represente melhor a existência do que o círculo: aproximamo-nos de questões conhecidas, mas a partir de outra posição. O retorno pode conter aprendizado, embora esse aprendizado não seja automático nem assegurado.

 

A memória participa dessa construção. Ao olhar para trás, selecionamos acontecimentos e estabelecemos relações entre eles. Identificamos fases, rupturas e continuidades que, enquanto vividas, talvez parecessem confusas. Assim, parte dos ciclos que reconhecemos resulta da maneira como narramos nossa trajetória. Essa organização pode produzir sentido e favorecer a compreensão de nós mesmos. É preciso, porém, evitar que ela imponha uma ordem artificial a tudo. A vida também contém acaso, acontecimentos inesperados e experiências que permanecem sem explicação satisfatória.

 

Se a existência apresenta recorrências, a liberdade humana pode ser exercida na forma de responder a elas. Reconhecer um padrão permite avaliar se desejamos conservá-lo, interrompê-lo ou transformá-lo. Há repetições que sustentam a vida, como o cuidado cotidiano, a convivência e os compromissos assumidos. Outras reduzem nossas possibilidades e exigem revisão. A questão relevante não é eliminar toda repetição, mas compreender seus efeitos. A continuidade também possui valor, e a mudança se torna significativa quando responde a necessidades concretas.

 

A existência, portanto, desenvolve-se parcialmente em ciclos, sem se deixar explicar por eles em sua totalidade. Há ritmos, etapas e situações recorrentes, mas também rupturas e acontecimentos irreversíveis. Viver envolve reconhecer o que retorna e acolher o que surge pela primeira vez. Talvez a pergunta mais fecunda seja o que fazemos quando nos encontramos novamente diante de uma questão conhecida. Nesse encontro, podemos repetir respostas antigas ou construir outras possibilidades. O tempo segue adiante, e cada resposta participa da forma que damos à nossa existência.

 

 

 

 Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos. - Jornalista (MT/SC 4155)