Pesquisas internas contrastam com números divulgados e indicam segundo turno em SC

Levantamentos utilizados pelas campanhas apresentam cenário diferente das pesquisas contratadas e divulgadas publicamente; entenda como funcionam as pesquisas eleitorais e o chamado tracking

 

A pouco mais de uma semana das eleições, dois cenários diferentes sobre a disputa pelo Governo de Santa Catarina circulam no meio político.

 

De um lado estão as pesquisas contratadas, registradas na Justiça Eleitoral e que vêm sendo divulgadas publicamente por veículos de comunicação. Do outro estão os cenários apontados pelas pesquisas internas e pelos levantamentos de acompanhamento utilizados pelos partidos e campanhas.

 

A diferença entre os dois retratos chama a atenção nesta reta final.

 

A mais recente Quaest, contratada pela NSC e divulgada na quinta-feira (24), apresentou Jorginho Mello (PL) com 54% das intenções de voto, João Rodrigues (PSD) com 13% e Gelson Merisio (PSB) com 10%.

 

Professor Marcus Sodré (PSTU), Marcelo Brigadeiro (Missão) e Laís Chaud (UP) aparecem com 1% cada. Ralf Zimmer (PRD) e Bruno Pedreiro (PCO) não pontuaram. Os indecisos somam 15%, enquanto brancos, nulos e aqueles que disseram que não vão votar representam 5%.

 

A Quaest ouviu 804 eleitores catarinenses com 16 anos ou mais entre os dias 20 e 23 de setembro. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi encomendado pela NC Comunicações S/A (NSC) e está registrado na Justiça Eleitoral sob os números SC-04783/2026 e BR-09969/2026.

 

Os números divulgados colocam sobre a mesa a possibilidade de a disputa pelo Governo do Estado ser definida ainda no primeiro turno.

 

Nos levantamentos internos utilizados pelas campanhas, porém, o cenário é diferente.

 

Informações apuradas pela Página Quatro junto a partidos e campanhas indicam que essas pesquisas apontam atualmente para segundo turno na disputa pelo Governo de Santa Catarina.

 

O mesmo cenário aparece em levantamentos de acompanhamento, conhecidos no meio político como tracking, utilizados para observar com maior frequência a movimentação do eleitorado.

 

Mas por que existem números que chegam ao conhecimento público e outros que permanecem nos bastidores das campanhas?

 

Para divulgar uma pesquisa existem regras

 

Pesquisa eleitoral não é simplesmente um levantamento que um instituto realiza e um veículo de comunicação decide publicar.

 

A legislação estabelece uma série de exigências.

 

A partir de 1º de janeiro do ano eleitoral, as pesquisas submetidas às regras eleitorais precisam ser registradas no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais, o PesqEle, observando-se o prazo mínimo de cinco dias para divulgação.

 

Entre as informações exigidas estão o contratante, o valor e a origem dos recursos utilizados, metodologia, período de realização, plano amostral, critérios de ponderação, nível de confiança, margem de erro, questionário e identificação do profissional de Estatística responsável.

 

Na divulgação também precisam constar informações como período da coleta, margem de erro, nível de confiança, número de entrevistas, instituto responsável, eventual contratante e número de registro.

 

Há uma diferença importante que nem sempre é percebida pelo eleitor: uma pesquisa estar registrada não significa que seus resultados tenham sido aprovados ou certificados pela Justiça Eleitoral.

 

A própria regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral estabelece que a Justiça Eleitoral não realiza controle prévio sobre o resultado das pesquisas. O controle judicial depende de provocação dos legitimados previstos na legislação.

 

Ou seja, o registro demonstra o cumprimento de uma exigência legal e permite a identificação e fiscalização do levantamento. Não representa um selo da Justiça Eleitoral atestando que aquele resultado está correto ou que necessariamente se confirmará nas urnas.

 

Fazer pesquisa e divulgar nos veículos de comunicação custa dinheiro

 

Existe ainda uma questão econômica.

 

Uma pesquisa estadual exige estrutura para entrevistar eleitores em diferentes regiões e segmentos da população, planejamento amostral, coleta de dados, processamento das informações, responsabilidade estatística e mecanismos de controle.

 

Quanto maior a abrangência, a amostra e a estrutura empregada, maior pode ser o custo do levantamento. Quando existe intenção de divulgação pública, há ainda um conjunto de procedimentos e informações que precisam atender às exigências estabelecidas pela legislação eleitoral.

 

Partidos e campanhas, entretanto, não utilizam pesquisas apenas para divulgação. Precisam de informações para tomar decisões durante toda a campanha.

 

É nesse ambiente que aparecem os levantamentos destinados ao consumo interno.

 

Essas pesquisas ajudam a orientar estratégias: identificar regiões onde determinado candidato cresce ou perde apoio, avaliar temas da campanha, medir rejeição, observar movimentações do eleitorado e decidir onde concentrar agendas, publicidade e estrutura eleitoral.

 

Nem todo número produzido para orientar uma campanha, portanto, acaba estampado na televisão, nos jornais ou nos portais de notícias.

 

E existe o tracking

 

Na reta final da eleição, outro instrumento ganha importância: o chamado tracking.

 

A lógica é diferente daquela de uma pesquisa realizada em determinado período e apresentada posteriormente.

 

No tracking, as campanhas trabalham com levantamentos sucessivos para acompanhar mais de perto as mudanças no comportamento do eleitor.

 

Novas entrevistas permitem observar movimentos ocorridos depois de debates, programas eleitorais, visitas de candidatos, fatos políticos ou outros acontecimentos capazes de interferir na disputa.

 

É uma ferramenta utilizada principalmente para estratégia e permite às campanhas acompanhar com maior frequência eventuais mudanças no comportamento do eleitorado.

 

Informações apuradas pela Página Quatro indicam que trackings utilizados nesta reta final da campanha também apontam atualmente para a realização de segundo turno em Santa Catarina.

 

Pesquisa é fotografia do momento

 

Independentemente de ser um levantamento divulgado publicamente ou utilizado pelas campanhas, seus resultados precisam ser interpretados considerando o período em que as entrevistas foram realizadas, a amostra escolhida e a metodologia empregada.

 

Não representam o resultado antecipado da eleição.

 

A própria Quaest divulgada nesta semana mostra um componente importante dessa reta final: 15% dos entrevistados ainda se declararam indecisos.

 

Até o dia da eleição, indecisos podem definir seus votos, outros eleitores podem mudar suas escolhas e acontecimentos da própria campanha podem produzir novos movimentos.

 

É justamente por isso que partidos investem no acompanhamento constante do eleitorado.

 

Dois cenários na reta final

 

De um lado, portanto, estão as pesquisas contratadas, registradas e divulgadas publicamente, que atualmente apresentam uma vantagem expressiva de Jorginho Mello e colocam sobre a mesa a possibilidade de definição da disputa no primeiro turno.

 

Do outro estão os cenários internos dos partidos e das campanhas.

 

Conforme informações apuradas pela Página Quatro, pesquisas internas e trackings utilizados nesta reta final apontam para uma eleição em dois turnos em Santa Catarina.

 

Isso, por si só, não determina que um levantamento esteja correto e outro errado.

 

Pesquisas podem apresentar diferenças decorrentes da metodologia, da composição da amostra, do período de coleta, dos critérios de ponderação e do próprio momento em que as entrevistas foram realizadas.

 

No fim das contas, nenhuma pesquisa substitui a manifestação do eleitor.

 

No dia 4 de outubro, serão os votos depositados nas urnas que mostrarão qual desses cenários chegou mais perto do resultado da eleição catarinense.