Leis estaduais ajudam a proteger e perpetuar aliança histórica entre botos e pescadores em Santa Catarina

Uma das relações mais raras e impressionantes entre seres humanos e animais continua atravessando gerações no litoral de Santa Catarina. Em Laguna, no Sul do Estado, botos ajudam pescadores artesanais durante a safra da tainha, cercando cardumes e indicando, com movimentos precisos, o momento exato para o lançamento das tarrafas.

 

A cena, considerada única no mundo, transformou o município na Capital Nacional dos Botos Pescadores, reconhecimento oficializado pela Lei Federal nº 13.818/2019.

 

Além do reconhecimento nacional, diferentes legislações estaduais também ajudam a preservar a tradição e a garantir proteção aos cerca de 50 botos residentes da região, fundamentais para a manutenção da pesca colaborativa que sustenta famílias e preserva uma herança cultural centenária.

 

Entre as iniciativas está a Lei Estadual nº 17.084/2017, de autoria do deputado estadual José Milton Scheffer, que instituiu o Dia Estadual da Preservação do Boto Pescador, celebrado em 25 de maio.

 

A legislação busca conscientizar a população sobre a importância da proteção da espécie Tursiops truncatus, diretamente ligada à continuidade da pesca artesanal cooperativa em Laguna.

 

A relação entre pescadores e botos também foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina após iniciativa de estudantes da Escola Ana Gondin, apresentada no Parlamento Mirim e posteriormente transformada em lei pela Assembleia Legislativa em 2017.

 

A proteção aos mamíferos marinhos no município, porém, vem de décadas anteriores. Desde 1993, as lagoas de Laguna são consideradas santuários ecológicos para os botos. Em 1997, os animais passaram a ser reconhecidos como patrimônio natural do município.

 

A interação ocorre principalmente na região da Barra de Laguna. Enquanto os pescadores observam atentamente a movimentação da água, os botos cercam os cardumes de tainha e realizam sinais na superfície que indicam o momento ideal para lançar as redes.

 

O lagunense Márcio De Córdova, de 50 anos, afirma que a tradição é passada de geração em geração.

 

“É um ofício que passa de geração para geração. Uma tradição”, resume.

 

Segundo ele, os pescadores conhecem individualmente muitos dos botos da região.

 

“Cada boto tem um nome e características próprias. São momentos únicos. Não tem preço”, relata.

 

A conexão entre os pescadores e os botos também simboliza a abertura da safra da tainha em Santa Catarina, considerada uma das atividades mais tradicionais do litoral catarinense.

 

A safra da tainha de 2026 começou oficialmente em 1º de maio e segue até julho. Neste ano, a temporada conta com regras mais rígidas, ampliação de cotas em 20% e monitoramento por satélite, em uma tentativa de equilibrar produção, sustentabilidade e preservação cultural.

 

No encontro entre o mar, os pescadores e os botos, Santa Catarina mantém viva não apenas uma tradição ancestral, mas um dos mais impressionantes exemplos de convivência harmoniosa entre homem e natureza.

 

Foto: Bruno Collaço | Agência ALESC